quinta-feira, 29 de junho de 2017

CAPÍTULO LXVII / A CASINHA

       



Jantei e fui a casa. Lá achei uma caixa de charutos, que me mandara
o Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas cor-de-rosa. Entendi, abri-a, e tirei este bilhete:
Meu B...
Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz
V...a”.
Foi um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite, corri à casa de Virgília. Era tempo; estava arrependida. Ao vão de uma janela, contou-me o que se passara com a baronesa. A baronesa disse-lhe francamente que se falara muito, no teatro, na noite anterior, a propósito da minha ausência do camarote do Lobo Neves; tinham comentado as minhas relações na casa; em suma, éramos objeto da suspeita pública. Concluiu dizendo que não sabia que fazer.
— O melhor é fugirmos, insinuei.
— Nunca, respondeu ela abanando a cabeça.
Vi que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública. Virgília era capaz de iguais e grandes sacrifícios para conservar ambas as vantagens, e a fuga só lhe deixava uma. Talvez senti alguma coisa semelhante a despeito; mas as comoções daqueles dois dias eram já muitas, e o despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha.
Com efeito, achei-a, dias depois, expressamente feita, em um recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro janelas na frente e duas de cada lado, — todas com venezianas cor de tijolo, — trepadeira nos cantos, jardim na frente; mistério e solidão. Um brinco!
Convencionamos que iria morar ali uma mulher, conhecida de Virgília, em cuja casa fora costureira e agregada. Virgília exercia sobre ela verdadeira fascinação. Não se lhe diria tudo; ela aceitaria facilmente o resto.
Para mim era aquilo uma situação nova do nosso amor, uma aparência de posse exclusiva, de domínio absoluto, alguma coisa que me faria adormecer a consciência e resguardar o decoro. Já estava cansado das cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canapé, de todas essas coisas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade. Agora podia evitar os jantares freqüentes, o chá de todas as noites, enfim a presença do filho deles, meu cúmplice e meu inimigo. A casa resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria à porta; — dali para dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso, somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronesas, sem olheiros, sem escutas, — um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade, uma só afeição, — a unidade moral de todas as coisas pela exclusão das que me eram contrárias.








Recomendamos para você:


História

Cronologia da Terra

Just Go #JustGo

Despacito Remix - Luis Fonsi Feat. Justin Bieber, Daddy Yankee

Top 10 - Poemas

LETRAS DE MÚSICAS – SONG LYRICS

Despacito Remix - Tradução em Português - Luis Fonsi Feat. Justin Bieber, Daddy Yankee

Amor é fogo que arde sem se ver - Luís Vaz de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver - Luís Vaz de Camões

O Navio Negreiro - Castro Alves

O Navio Negreiro - Castro Alves

Canção do exílio - Gonçalves Dias

Sanderlei Silveira

Canção do exílio - Gonçalves Dias

Canção do exílio - Gonçalves Dias

Prédios mais altos do mundo

As festas populares em Santa Catarina

As festas populares no estado de São Paulo

As festas populares no estado do Paraná

As festas populares do estado de Mato Grosso do Sul

As atividades econômicas no estado de Santa Catarina

As atividades econômicas do estado de São Paulo

As atividades econômicas do Mato Grosso do Sul

Sanderlei Silveira

As atividades econômicas do estado do Paraná

Clima e relevo no estado de Santa Catarina

O relevo do estado de São Paulo

Relevo do estado de Mato Grosso do Sul

Clima e relevo do estado do Paraná

Biblia Sagrada - João Ferreira de Almeida

O Diário de Anne Frank

Aruba

Os imigrantes no estado de Santa Catarina no século XX

Sanderlei Silveira

Os imigrantes e o trabalho assalariado no século XIX em São Paulo

Os imigrantes no século XIX e XX no estado do Paraná

Biomas brasileiros

Poesia

Poemas

Poetry

Sanderlei Silveira

Sanderlei Silveira

OLHOS DE RESSACA

História em 1 Minuto

Sanderlei Silveira

Jane Austen

Paraná - Conheça seu Estado (História e Geografia)

Song Lyrics - Letras Música - Tradução em Português

Snow Birds - Louis Honoré Fréchette

Migos

Economia

BÍBLIA ONLINE

DOM CASMURRO

Memórias Póstumas de Brás Cubas

by Sanderlei Silveira -  http://sanderlei.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário